terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Renúncia

Me apedrejam com elogios,
moço bonito, esforçado, charmoso,
que não deveria cair por pouco,
que pareço ser douto,
logo arranjarei outro.

Me cospem conselhos:
"Vai lá, o reconquista,
mostra teu apreço".

À todos, agradeço,
mas desistam.

Já não resta nada de mim.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Automat E. H.

Automat, pintura de Edward Hopper
eu entendo.
os dias passam lentos,
as noites são tão frias!
a vida se refugia
debaixo das camas

eu entendo.
nós somos nossos monstros
assistimos nossa autodestruição
pela televisão
e achamos graça

eu entendo.
nós viajamos com o proibido
nos prendemos ao tributário
e não vemos toda a farsa

eu entendo.
eu também sou desse mundo
apesar de não querer
e nem parecer ao menos

eu entendo.
e também quero lugares pequenos
fora desses lares de egos inflados,
desse humor que diz que o mundo
é você e nada mais

eu entendo.
dói, mas eu entendo.
as pedras choram,
as plantas morrem.
e eu entendo.

uniVerso

sinto-me tal qual
um planeta.
gigante e pequenino,
um menino de
bilhões de anos.

carbono, nitrogênio
oxigênio, enxofre
sou gás e pedra.
vazio.
frio.
vil.

tudo é distância
e vulnerabilidade
sem força de gravidade
para me sorver

e quando for eu
desolação, morte
e casca sem coração,
que Marte vou
terra-fazer?

Réplica: Descontrole

Nota: Não foi eu quem escreveu este poema. Recebi de presente de uma amiga especial, e nossa, acho que era o que eu estava precisando.

"Um hora
Vai embora
Com as lembranças
Daquele que te deixou imerso
Em outra dimensão
Onde cada pedaço dele
Foi transformado em verso
Apavorando seu coração.
Mas abraço é um conforto
Mesmo que o tão esperado não lhe venha mais
Não és um peso morto
Mas um pedaço
Despedaçado
Em construção
Que a fé no tempo não esgote
Seja forte
Sempre há uma solução."

domingo, 17 de janeiro de 2016

Descontrole

Já cansei de mim,
dos meus versos.
Não me quero mais.
(olhem meu estado)
meu espírito, falho,
meu corpo, em retalhos,
e abraço nenhum me serve,
nenhum
além do dele.

O observo de longe,
lidando com recentes perdas,
num quarto cheio.
Devaneios,
o coração se apavora;
e vários dias se passaram
em somente uma hora.

Um março cruel se aproxima
e tudo tem que estar melhor.

Mas eu já perdi a fé no tempo.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Momentâneo

nesse momento –
em que meu espírito
me abandona –
surge o tormento.

lá fora. aqui dentro.

maus pensamentos
vêm à tona,
lembrando que poeta
é como qualquer ser,
apesar de rabiscar versos
da alma irrequieta,
de tentar ver
além do possível.

enquanto vejo que vejo
e nada vejo,
enquanto evito o vazio
que me invade,
percebo-me cheio
de meio.
cheio de poesias
pela metade.

então assimilo
a verdade
que canta minha lira, senhora:

isso é tudo uma grande mentira.

então assimilo
a maldade
que esbarra em minha lira, senhora:
isso é só um momento de ira.

Doce

Põe debaixo da língua,
sente o amargo
e espera adormecer;

Adormeci.

E o chão já não era o mesmo,
e eu alcançava os céus
e via o vento;

o processo, que já era lento,
estagnou.

Me senti perseguido
por mim mesmo;
o peito chora,
o lábio ri,
e, ao longo da noite,
a sobriedade volta
infectada;
a calçada se mexe,
os postes se beijam.

E o corpo acaba dormente,
trêmulo no tapete,
devorado por listras invisíveis
e memórias.